Como o tema desse blog é teatro e temos uma amiga que é simplesmente apaixonada pelos palcos, resolvemos tê-la como colaboradora… Sim, daqui para frente o “No Palco” contará também com textos de Vanessa Medeiros, uma ótima atriz, exímia jornalista e excelente amiga.
Confiram:
O respeitável público acompanha atento cada um de seus gestos. Aos 42 minutos de peça, nenhum dos espectadores pensou em tirar os olhos das cenas que acontecem em cima do palco logo à frente deles. Não são muitos, é verdade, mas a audiência é fiel. Os três espectadores desta noite no Teatro Bela Vista saíram do lugar espantados com o espetáculo. “Aquele careca é ótimo”, comenta um deles à porta.
Aquele careca é Geraldo Pedro da Silva Júnior, no papel de um noivo liberal que precisa agüentar as moralidades da noiva virgem em plena noite de lua de mel. O pífio desempenho do público não chega a incomodar. Afinal, é impossível que Geraldo Pinheiro, como adotou em seu nome artístico, não seja notado.
Um metro e 82 centímetros, os ombros largos e o porte de lutador de artes marciais assustam alguns espectadores mais desavisados. Nem bem o gigante aparece sob as luzes da ribalta, uma expressão generosa se ilumina, e os dentes fazem sorrir o rosto todo, do largo queixo à grande careca que ostenta – nem um único fio de cabelo sobrou para contar uma história.
Não que seja preciso – um bom personagem sabe como traçar suas próprias histórias, e raramente precisa que o interlocutor se empolgue tanto quanto ele. Dispara palavras e frases e períodos inteiros sem perder o ritmo, o tom de voz acelerado, a dicção impecável treinada à base de muito exercício e um pacotinho de chicletes no bolso da camisa. “Ajuda a articular a fala”, explica.
Ajudou tanto que ele resolveu deixar as pausas para raros momentos, e somente com a função de recuperar o fôlego. A mania de esboçar algum tipo de comunicação com tudo e com todos vem de longa data. Aos 17 anos, o jovem estudante se viu diante de uma escolha inevitável – e nem por isso menos complicada. Seguir os caminhos tortuosos (e financeiramente inseguros) da arte que praticava desde os 13, ou a vontade do pai de ver o filho como executivo de uma grande empresa.
Como em um desses inevitáveis tropeços da vida, Geraldo escolheu a engravatada segunda opção. Concluiu a faculdade de publicidade e propaganda, área na qual trabalhou durante sete anos, antes de jogar tudo para o alto em nome do que fazia falta em sua vida. “Um pouco de circo, e de rebeldia. Foi uma tentativa de me livrar do suicídio constante em que meu mundo havia se transformado”, lembra o ator.
Entrou para o curso Célia Helena aos 29 anos, e, tomado por uma vontade incontrolável de não perder o controle da situação, não deixou que seu pai interferisse nas escolhas. “Foi quando tomei as rédeas da minha liberdade”.
Ele só não foi galã da Globo. Em seu currículo, “Cinderela”, “A Pedra do Reino”, “Calígula”, “Fogo Cruel em Lua de Mel”. O que não impede que conviviam, quase que no parágrafo seguinte, “Parmalat”, “Vivo”, “Banco Real”, “Casas Bahia” e “Citroen C3”. Por mês, são dez testes para campanhas publicitárias. Há mais de 90 dias não é chamado para nenhuma delas. É outro lado da profissão na qual se formou: de futuro executivo de agências a rejeitado pela maioria delas.
Como ator não vive (ainda) de vento, Geraldo arranjou uma receita alternativa. De noite, põe a maquiagem do espetáculo e veste o figurino: pijama vermelho. No dia seguinte, troca o short e a camisa por um jaleco branco que o acompanha nas aulas de educação artística que ministra em uma escola particular do bairro onde mora, a Vila Sônia, quase na divisa com o município de Taboão da Serra.
Depois de um dia na sala de aula, uma boa notícia chega ao teatro. Quase dez espectadores: um amigo trouxe a família. No estacionamento, um cigarro antes de entrar no carro – faz doze horas que não fuma, por causa da correria. É preciso acendê-lo com cuidado, e fumar sempre do vidro para fora. Um maço teria até vergonha de entrar, tamanha a implicância de Dona Marisa, mãe de Geraldo, com qualquer tipo de fumaça. “Ela odeia, e eu não posso contrariar a mulher”.
Dona Marisa, ao contrário do que se pode esperar de uma mulher que não pode ser contrariada, tem menos de 1,5 metro de altura, 70 anos, e uma grande tendência para o bom humor. Seu marido não fala com o filho ator há mais de década, como diria Dona Marisa, e os três ainda moram na mesma casa. “O salário na peça e na escola não dá para sair daqui, mesmo com esses problemas.” A mãe completa: “Mas vai dar, filho, tenha fé que vai dar”. Como o respeitável público, ela também não consegue tirar os olhos do filho que virou artista.
Vanessa Medeiros