Retomando as reportagens sobre 1968 não podíamos deixar de falar sobre o espetáculo Roda Viva, que marcou aquele ano.
Escrita por Chico Buarque e dirigida por José Celso Martinez Corrêa, em 1968, a peça Roda-Viva marcou o teatro brasileiro ao mexer com a platéia, provocá-la e escancarar os problemas da época. Apesar de alguns julgarem o texto “ingênuo”, a peça ficou conhecida como parte do “teatro de agressão”, muito criticado na época, mas que não deixava de lotar as apresentações. Durante a temporada de São Paulo, o teatro foi invadido, destruído e os atores sofreram agressões.
Em entrevista exclusiva, a atriz Margarida Baird, que fazia parte do coro, fala sobre a peça, a invasão do Teatro Ruth Escobar e as marcas deixadas por aquele momento.
Como surgiu a oportunidade para participar de Roda Viva?Margarida Baird - Eu sou carioca, na época namorava o Antonio Pedro e já fazia teatro. Antes de a peça vir pra cá eu já entrei no elenco para vir com ele. Na época eu usava o nome de Margot.
Você imaginava que a repercussão seria tão forte?
MB - Não tinha idéia. A gente sabia que estava fazendo alguma coisa muito diferente. Mas não tinha idéia da repercussão.
Diferente como?
MB - Por ser uma peça que mexia com a platéia. Não era uma coisa muito comum sacudir as pessoas, era uma coisa muito, digamos, revolucionária. O próprio Zé Celso depois dirigiu Galileu e ele achou que tava indo pra trás, que tava fazendo um teatro mais comportado.
E o que você achou da direção do Zé Celso em Roda Viva?
MB - Era um trabalho lindíssimo, fortíssimo, extremamente jovem, intenso. E realmente mexia, ele tava fazendo uma revolução na linguagem teatral. Tanto que uma vez em Paris eu encontrei uma atriz que era professora de teatro e ela disse que o melhor diretor de teatro era o Zé Celso que se mantinha vivo, mais do que Peter Brooke. Interessante, não é?!
Como costumava ser a reação da platéia durante o espetáculo?
MB - Era muito forte, tanto que teve a reação que teve [invasão e destruição do teatro pelo Comando de Caça aos Comunistas]. As pessoas ficavam chocadas, mas ao mesmo tempo elas gostavam dessa mexida, até por que era um sucesso extraordinário o espetáculo.
O que aconteceu no dia em que o teatro foi invadido?
MB - Foi um espetáculo lotado como sempre. Mas o Antonio Pedro, que fazia o anjo e o empresário, percebeu que não havia uma reação muito grande às piadas, o público normalmente reagia bem e nesse dia foi uma reação mais contida. E foi uma coisa muito rápida por que a gente mal saiu de cena já começou toda a quebradeira. Foi surpreendente e mal deu tempo da gente trocar de roupa. Foi rapidíssimo, pois eles estavam muito bem organizados, como a direita costuma estar sempre. Então, uma parte foi para os camarins e a outra parte quebrou o teatro.
Você notou algo diferente durante o espetáculo?
MB - Do público eu não notei tanta diferença, mas eles estavam na platéia e declararam isso. Mas depois o negócio foi bravo. A gente ouviu um barulhão e achamos que estava havendo alguma coisa. O que me passou pela cabeça foi que como todos os rapazes ficavam juntos no camarim, parecia que todos estavam brigando. Então nós saímos dos nossos camarins para ver o que estava havendo, com as roupas de cena. E aí pronto, o caos estava instalado. Era muita gente, a pessoa que tirou a minha roupa e me agrediu era muito novo, devia ter minha idade ou menos.
Durante a confusão houve alguma distinção entre homens e mulheres?
MB - Sim. Fizeram todos os homens saírem do camarim e do teatro e nós, mulheres, eles atacaram mesmo. Eles quebraram tudo, machucaram as pessoas e foram embora. Foi rapidíssimo, mas parecia que tinha durado a vida inteira.
Você teve algum ferimento mais grave ou alguma seqüela?
MB - Não, físico, não. Eu fiquei sem roupa no meio do corredor, a minha calcinha estava estraçalhada quando eu a encontrei no meio dos destroços e eles apertaram o meu seio dizendo: “Isso é que é revolução! Isso é que é revolução!”.
Vocês receberam alguma justificativa após o ataque?
MB - Eles mesmos puseram no jornal que era uma reação à peça e se identificaram como o CCC [Comando de Caça aos Comunistas] e justificaram a invasão em cima disso.
Como você ficou depois disso tudo?
MB - Sofri horrores, morria de medo. Tinha muito medo de sair na rua, de chegar em casa. Eu tinha muito medo, fiquei apavorada.
Qual foi a reação da sua família?
MB - Eu morava no Rio, e minha família estava lá. Foi só aquilo: “Viu só, fica fazendo essas coisas, viu no que dá?” Mas eu era de esquerda, sim, como toda juventude pensante.
Como você definiria o clima cultural de 68?
MB - Era um clima extremamente fértil, que tinha muita esperança de que tava mudando o mundo. A gente achava que o que a gente estava fazendo estava realmente contribuindo para que o ser humano fosse um pouco melhor. Mas infelizmente não foi o que aconteceu.
Ainda existe esta fertilidade hoje?
MB - Eu acho que atualmente as pessoas estão preocupadíssimas em ganhar dinheiro, em consumir. Não existem mais utopias, a cultura está muito pobre, está tudo muito triste.
Para você, qual é a lembrança mais marcante da invasão do teatro?
MB - Para mim são várias, mas essa coisa de me atirarem no corredor, apertarem meu seio e dizerem que aquilo que era revolução, me chocou bastante. E ainda por ele [o agressor] ser muito jovem.
Priscila Zuini