Trajetória do Arena e do Oficina até 68

Turning-point é a expressão utilizada no teatro para designar o momento em que tudo muda na narração. É a ação dramática que interfere no ritmo da história e, depois desse momento de clímax, nem os personagens nem a situação é a mesma.

No entanto, não só as peças teatrais são marcadas por turning-points. Ao longo da história do Teatro de Arena e do Oficina tiveram muitos pontos altos e o ano de 1968 certamente foi um deles.

Depois de decretado o AI-5 houve transformações em cada um dos movimentos. Os dois palcos lidaram com a situação de maneiras distintas e, por isso, acabaram tomando rumos opostos. Contudo para entender este turning-point e, assim, acompanhar o desenrolar da história, primeiro precisa-se conhecer o princípio de tudo, o 1º Ato.

 

Retrospectiva

 

Em 1953, em solo paulistano, nasce o Teatro de Arena. Segundo a professora da USP de Teatro Brasileiro, Elizabeth Azevedo, o objetivo inicial do movimento era encenar textos clássicos para o público estudantil, valorizando produções e artistas do país. Ou seja, o engajamento político não estava nas raízes do Arena.

Cinco anos depois, mas com o mesmo intuito, surge o Teatro Oficina. Criado por iniciativa de estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e com José Celso Martinez Corrêa como seu principal representante. “O Oficina também pretendia revelar autores brasileiros”, explica Elizabeth. A origem dos dois teatros foi, então, parecida.

Além dos primeiros passos serem semelhantes, a professora ainda conta que os dois tiveram outros pontos em comum. Em 1960, por exemplo, o Arena e o Oficina trabalharam juntos na produção da peça “Fogo Frio”, de Benedito Ruy Barbosa, sendo que a relação entre os dois teatros era quase sempre intermediada por Zé Celso, ponto de intersecção entre eles.

Com inícios parecidos e projetos feitos em parceria, era de se esperar que os dois teatros escrevessem histórias praticamente iguais, mas os anos 60 sopravam ares novos e, aí, a “narração” começou a caminhar para o seu momento de clímax.

 

A Virada

 

Em dezembro de 1968, é promulgado o AI-5. Agora, a censura é aberta e a represália se torna mais rígida. O que fazer, então? É exatamente sobre isso que o Teatro Arena e o Oficina não conseguem chegar a um acordo.

“Com a promulgação do AI-5 cada um dos teatros toma um rumo diferente, sendo que, por causa das posturas distintas, um começa a chamar o outro de ‘alienado’”, conta Elizabeth.

Enquanto o movimento iniciado por José Renato, diretor do Arena e responsável pela introdução do teatro de Brecht no país, adota uma posição de esquerda, o Teatro Oficina assume de vez sua ligação com a vanguarda, atitude de contestação que o movimento começou a incorporar pouco antes de 68. O problema é que nenhum dos dois compreendeu ou apoiou as medidas contra a censura tomadas pelo outro.

A professora da ECA esclarece que o ponto de ruptura entre o Arena e o Oficina foi o entendimento diferente de como se contesta a sociedade e enfrenta uma repressão política. Para o primeiro, o certo seria resistir à censura declaradamente nas produções teatrais ou ainda por meio de metáforas inseridas nos textos. Já o segundo buscava uma contestação da vida, dos costumes, dos valores morais e familiares da sociedade brasileira, acreditando que, assim, a população estaria preparada para resistir ao AI-5 e à ditadura, cuja ingerência na vida privada era grande (basta lembrar que o divórcio era proibido por lei).

Em poucas palavras Elizabeth esclarece que os dois teatros tinham um inimigo em comum, mas que a estratégia adotada por cada um deles foi diferente, o que gerou uma zona de conflito no palco paulistano. “O objetivo do Arena e do Oficina poderia ser igual, mas o caminho que cada um tomou foi diferente e foi sobre esse caminho que eles se desentenderam. No momento forte da ditadura os dois assumiram posições antagônicas.”

Aqueles que nasceram de maneiras similares e foram parecidos por tentarem trabalhar juntos, no final acabaram tomando rumos desiguais. Qual foi o turning-point? 1968.

 

Anna Carolina Oliveira

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