Em um cenário tomado pela ditadura militar e pela opressão política e ideológica, Pedroso precisou recorrer ao cotidiano urbano paulistano para elaborar aquele que seria considerado um de seus textos mais primorosos. Dessa forma, deu um toque coloquial aos diálogos da novela, e conseguiu fazer com que sua trama fosse aprovada pelos militares que governavam o Brasil, como comenta a professora da Universidade Federal da Bahia e especialista em teledramaturgia, Carmem Jacob. “Esse é um critério adotado pelos criadores e depende da avaliação que fazem do contexto político”. Além disso, o autor utilizou em sua composição um anti-herói que, como lembra Mauro Alencar em seu livro A Hollywood brasileira – Panorama da telenovela no Brasil, “não era um herói nem vilão, apenas um homem comum que tentava penetrar na alta sociedade paulistana”.
Aliás, Luiz Gustavo Blanco, o intérprete desse protagonista esperto e cheio de ginga, comentou em entrevista ao Portal Terra a dificuldade de interpretar esse personagem em pleno contexto histórico da época. “Naquele momento, era uma ousadia um personagem como este”. E ainda foi complementado por Marília Pêra, que no folhetim interpretava Manuela. “Estávamos no auge da ditadura, era a hora de quebrar barreiras. A obrigatoriedade do herói bonzinho era uma imposição que caiu por terra”. Vale salientar, inclusive, que o próprio título da trama, Beto Rockfeller, demonstra esse espírito revolucionário que o folhetim pretendia trazer para o dia-a-dia dos telespectadores. O nome Beto foi escolhido por ser um apelido bem brasileiro; já Rockfeller queria representar o sobrenome de uma das maiores fortunas internacional encontradas no país naquele período.
Seu toque inovador pode ser resultado da escolha do autor da trama, já que Pedroso revelou em entrevista a Alencar que jamais havia assistido à uma novela inteira antes de ser convidado para escrever tal folhetim. “Talvez por isso ele tenha conseguido criar algo tão fora dos padrões da televisão da época, inspirado em seu trabalho no teatro”, argumentou o escritor. E essas novidades não ficaram só por conta dos personagens e da trama que o novelista desenvolveu com maestria, a inclusão de músicas populares nacionais e internacionais na trilha sonora do folhetim também contribuíram para que Beto Rockfeller propiciasse uma verdadeira revolução no modo de pensar e de fazer a teledramaturgia brasileira. “Ela influenciou o modo de pensar novela no Brasil, mas influenciou principalmente no modo de criar e comercializar telenovelas. Foi mais um símbolo importante para uma mudança em curso no modo de se fazer telenovela”, assegurou a professora Carmem Jacob.
E por causa da sua forma inusitada de mostrar a realidade daqueles tempos, a produção, além de virar febre nacional, também fez com que o folhetim fosse destaque dos principais veículos do país, como recorda Luiz Gustavo Blanco. “Fomos parar nas colunas sociais e políticas. Íamos presos a cada duas semanas por causa da censura. Fomos capa da Veja logo depois da estréia”. E não pára por aí. Ana Rosa Galego, a intérprete de Cida, contou que a censura também não perdoava algumas cenas que revolucionaram a teledramaturgia daquela época, como, por exemplo, a primeira cena de sexo dos folhetins. “A censura caiu em cima, mas foi tudo sutilmente dirigido. Tinha beijo, abraço, a câmera descia para os pés e só mostrava o vestido caindo”.
Enfim, Beto Rockfeller, que teve direção de Lima Duarte e de Walter Avancini tornou-se assunto diário dos brasileiros, mostrando as artimanhas de um homem cara de pau e com muita desenvoltura para se comunicar. Assim, em plena ditadura militar, a novela pode ser desenvolvida e acabou virando símbolo de uma excelente produção que não marcou apenas aquele período histórico, mas fez também com que o modo de criar novelas fosse repensado a partir dali.
Lygia Haydée
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Sérgio Henrique